sexta-feira, 28 de abril de 2017

Gorillaz: "Humanz" não inova, mas não decepciona




Se, por um lado, o tempo em que vivemos é sombrio e dominado por figuras lunáticas que só ameaçam a humanidade; por outro, é um período onde a música se encontra, novamente e finalmente (por bem ou por mal), como uma das melhores formas de expressão política e social. Dito isso, pode até soar caótica a afirmação de que desde que Donald Trump assumiu o poder, em novembro de 2016, o primeiro álbum com alto teor de engajamento contra o atual presidente norte-americano surgiu de uma banda formada por desenhos animados.

Quando o Gorillaz divulgou o single "Hallelujah Money", no começo do ano - e assustou todos os seus fãs com um clipe bizarro - ficou mais do que óbvio que o novo trabalho traria temas muito mais sérios do que o esperado. Lançado no dia da posse de Trump, a música causou estranheza não apenas pelo videoclipe, mas por toda sua ambientação trip-hop/gospel e, também, pela letra claustrofóbica em função do novo governo americano. Os versos interpretados pela voz de Benjamin Clementine simbolizavam o início de algo que ninguém sabia muito bem definir ou esperar - esteja eu falando do mandato presidencial ou do próprio disco da banda.

Com o lançamento - e após ouvir umas três ou quatro vezes - fica claro que Humanz não foi produzido para ser uma coletânea de sucessos, e sim, uma obra conceitual que abrace uma temática sociopolítica moderna. Usando o hip-hop como principal referência para abusar das metáforas para com o cenário mundial, Damon Albarn parece não se incomodar de parecer pretensioso e cria, voluntariamente, uma "soundtrack do apocalipse". Aqui, o frontman britânico resgata o lado estético de "Clint Eastwood" e "Rock the House" e bebe - e como bebe - da fonte de discos como To Pimp A Butterfly, do Kendrick Lamar, para construir um disco coerente, linear e honesto.

Fora o começo avassalador com três faixas poderosíssimas (Ascension, Strobelite e Saturnz Barz), o decorrer do álbum mantém uma boa média que não oscila. Momentz e Sex Murder Party são algumas das exceções de faixas que não têm o menor sentido estarem ali - tirando o nome do De La Soul, que precisa estar em todos os discos da banda. Busted and Blue apresenta um dos momentos mais divergentes do trabalho, com a rara aparição de Damon Albarn como vocalista central em uma balada assustadoramente bonita, que lembra bastante os primeiros minutos de Empire Ants, do disco anterior, fora os sintetizadores. Andromeda, por sua vez, também nos remete ao Gorillaz de Plastic Beach, com um batidão pop chiclete que vai grudar na sua cabeça pelos próximos dois dias.

É importante frisar que, apesar de um certo experimentalismo colocado ali como quem não quer nada, Humanz é um álbum absurdamente pop. É mais ou menos a fórmula usada pelo Radiohead em quase todos os trabalhos. Tudo parece muito complicado e fora de ordem, mas bastam duas ouvidas pra se dar conta de que o disco é tão acessível quanto todos os outros. Carnival, uma das melhores e mais esquisitas canções do disco, caracteriza isso mais do que qualquer coisa que eu possa escrever aqui. She's My Collar, minha favorita, à princípio pode parecer um delírio de Albarn, com um instrumental que poderia fazer parte do Currents, do Tame Impala. Com o tempo, ela se torna mais pop do que qualquer canção presente no projeto.

Entretanto, apesar da qualidade e da boa produção, Humanz não é um disco perfeito, e tem seus pontos negativos. A comparação é inevitável, e, musicalmente falando, o novo trabalho fica devendo para seus antecessores. Não é uma fábrica de hits como Demon Days e Plastic Beach, muito menos tem o charme do debut. Entre seus defeitos, encontra-se a já citada falta da presença vocal de Damon Albarn, que empresta seu protagonismo aos artistas convidados na grande maioria das músicas que, em maioria, são ótimas, mas podem soar um pouco decepcionantes para quem esperou 7 anos pra ouvir um disco do Gorillaz e se deparou com uma coletânea de novos cantores. Porém, é importante frisar como este é o disco mais coeso da carreira da banda. São 20 faixas (sem contar as extras) que conversam entre si e não soam perdidas em nenhum momento. Com a ajuda de "interludes", o projeto abraça sua temática e flui como nenhum outro disco dos cartoons fez antes.

A última faixa, We Got The Power, com vocais de Jehnny Beth (The Savages) e uma participação fantasma de Noel Gallagher, encerra o trabalho com a mensagem de que, ainda com todo o caos vivido, temos o poder de amar uns aos outros e ter o coração cheio de esperança. Uma forma bonita e esperançosa de encerrar uma obra que tem como perfil a crítica a um presente taxado, até meio escrachadamente, como catastrófico. E é interessante como o disco todo aborda, acima de tudo, nossos sentimentos e emoções perante a isso. É muito mais do que uma narrativa do que de pior acontece no mundo; é um espelho das nossas reações e fraquezas humanas diante dessa mesma narrativa. Afinal, somos sempre meros mortais sofrendo com as consequências colocadas por outros mortais. Somos humanos. Caso contrário, o disco se chamaria Robotz.

GORILLAZ - "HUMANZ" (2017)












VEREDITO: Damon Albarn nos apresenta um dos discos mais sólidos do Gorillaz e traz uma forte e importante carga política. Apesar de não apresentar muitas inovações ou grandes hits, o disco tem boas canções e se sustenta na construção de seu próprio conceito e mensagem.
NOTA: 7.5





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